Infância perdida: comissão apura morte de crianças em incursões policiais

Publicado: 2 de junho de 2009 em Uncategorized

Fotos: Bruno Gonzalez

Geral

A emoção tomou conta de quem acompanhava a audiência pública realizada pela Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), na manhã desta terça-feira, dia 2.

O encontro tinha como objetivo acompanhar as investigações e apurar as circunstâncias em que ocorreram mortes de três crianças durante incursões policiais em comunidades da Zona Norte e da Zona Oeste do Rio. Além de pais, familiares e amigos das vítimas, a audiência reuniu autoridades civis e militares e representantes de Organizações Não Governamentais (ONG), além de líderes comunitários.

Antes do início dos depoimentos, houve a exibição de um vídeo relembrando a morte de Matheus Rodrigues de Carvalho, 8 anos. O menino morreu na porta da igreja evangélica onde morava com a mãe e sete irmãos, na Favela Baixa do Sapateiro, no Complexo da Maré, em Bonsucesso, na Zona Norte, no dia 4 de dezembro do ano passado.

Geral

Matriculado na Escola Municipal IV Centenário, ele havia saído para estudar e voltou para casa, por volta das 7h30. Acabou atingido por um tiro de fuzil na cabeça quando saía pelo portão de sua residência, na Rua Oliveira. O menino estava sobre o degrau da entrada – cerca de 50 centímetros acima do nível da rua – e quando colocou o corpo para fora, foi alvejado. A bala entrou pela nuca, saiu pelo rosto, desfigurando-o, e atingiu a casa de um vizinho. O estudante caiu sentado, com o corpo para dentro de casa. Moradores contaram que o disparo partiu da arma de um policial militar lotado no 22º BPM (Benfica).

Geral

“Ele voltou dizendo que não ia ter aula e perguntou se eu tinha dinheiro para comprar pão, porque não tinha tido café da manhã na escola e ele estava com fome. Eu tinha R$ 1 e dei a ele para ir na padaria. Ouvi um barulho que achei que fosse uma bomba. Quando saí para ver o que era, encontrei meu filho caído. Ele estava com os dentinhos pra fora. Com os olhos abertos. Tenho outros filhos, mas nunca mais vai ser a mesma coisa. Todo dia ele dizia “eu te amo, mãe”. Aconteceu em dezembro. Não tenho mais Natal. Não tenho mais ano novo. Fico pedindo forças para sobreviver e criar os outros”, desabafou a auxiliar de limpeza Gracilene Rodrigues de Carvalho, 34.

_MG_1073

Presidente do Projeto Uerê durante 10 anos e atualmente Coordenadora Executiva e Pedagógica da ONG – que funciona na Baixa do Sapateiro – Yvonne Bezerra de Mello foi uma das primeiras a chegar ao local.

“É preciso discutir o problema das incursões em favelas. Isso vai ter que mudar. São 17 mil mortos em dois anos. E além das mortes de crianças, há casos em que elas levam tiros e não morrem. Ficam paraplégicas, sofrem seqüelas. Naquele dia, a perita não tinha papel, não tinha caneta. Aliás, tinha uma caneta, mas não funcionava. Quem isolou o local do crime foi a comunidade. Que diabo de Polícia é essa?”, questionou.

O vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, deputado estadual Alessandro Molon, afirmou que é preciso combater a desmoralização do Estado.

Geral

“Isso é o resultado da dupla falência do Estado. A criança voltou para casa porque não teve aula e quando saía para ir à padaria foi morta por um agente do Estado. Apesar de toda a dor que isso envolve, é necessário discutir e exigir mudanças ou a desmoralização do Estado vai chegar ao fundo do poço”, declarou Molon.

O comandante do 22º BPM, tenente-coronel Rogério Seixas Cruz, informou que abriu uma sindicância para apurar o fato e que os policiais militares que integravam a equipe envolvida no incidente entraram na comunidade sem comunicar ao batalhão. Um deles – o sargento Ângelo de Oliveira Júnior, 44 – morreu no último dia 9 de maio, após confronto com traficantes da Favela Parque União, também no Complexo da Maré. Os outros PMs foram transferidos para outras unidades.

Geral

“No âmbito do batalhão é aberta uma averiguação, mas, diante da dimensão do problema, abrimos uma sindicância que produziu um relatório. Os pais do menor negaram-se a prestar esclarecimentos e disseram que iriam prestar declarações somente à Promotoria. Não houve indícios de cometimento de crime militar, e sim de crime de competência da Justiça Comum, além de transgressão da disciplina, por eles terem entrado na comunidade sem comunicar o batalhão”, afirmou.

À frente da delegacia responsável pelas investigações há 25 dias, a delegada Valéria de Castro, titular da 21ª DP (Bonsucesso), afirmou que o inquérito está à disposição de quem quiser acompanhar o andamento da investigação e pediu a ajuda da sociedade.

Geral

“A sociedade civil precisa nos ajudar. A sociedade tem que parar de fumar crack, de usar drogas, de achar que maconha é bonitinha. A origem de toda essa violência é a droga. Antes de mais nada temos que formar cidadãos para o futuro. Somos responsáveis pela criação dos nossos filhos”, enfatizou.

Vítimas da Vila Aliança
Outras duas crianças foram vitimadas durante confronto entre policiais e traficantes na Favela Vila Aliança, em Bangu, na Zona Oeste. No dia 29 de abril, Yasmim Kely Barbosa da Silva, de apenas 3 anos, levou um tiro de fuzil nas costas. No dia 20 de março, Júlia Andrade de Carvalho, de 8 anos, foi atingida na barriga. Ela chegou a ser socorrida e levada para o Hospital Estadual Albert Schweitzer, mas não resistiu ao ferimento.

Geral

“Ao contrário do que as pessoas possam pensar, que criança na favela fica largada, a minha filha não ficava na rua. Ela foi a 100 metros de casa comprar um refrigerante e voltou com a mão na barriga, dizendo que tinha levado uma pedrada. As pessoas às vezes não têm noção do que é perder um filho. Todo dia em que vou dormir eu choro e sei que vai continuar assim por muitos anos. Sei que o Estado tem que estar presente, mas pra dar segurança. Eu não acusei nem a Polícia e nem bandido porque não vi quem foi. Só sei que isso acabou com a minha vida”, lamentou, sob lágrimas.

A presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Margarida Pressburguer, disse que, além de Yasmim e Júlia, um bebê também morreu vítima de tiro na favela.

_MG_1095

“Em um mês, foram três crianças mortas na Vila Aliança. Os casos se repetem. Todo dia novos casos acontecem. Estamos cansadas, nos arrastando nas lutas porque sabemos que a luta tem que continuar. Há fábrica de armas na favela? Há refino de drogas na favela? Por que não apreendê-las antes de chegar lá em cima?”, indagou.

O comandante do 14º BPM (Bangu), tenente-coronel Pedro Paulo Silva, se declarou um militante dos direitos humanos e garantiu que todas as operações são baseadas em ações de inteligência e com objetivos definidos.

Geral

“A operação que vitimou a Júlia não foi repressiva. Era uma ação pacífica para retirar entulho. A própria comunidade pediu. Recebemos vários Disque-Denúncia avisando sobre pedras, paus, quebra-molas altos. Fomos à comunidade com retroescavadeiras e equipes da Prefeitura. A outra vítima foi durante uma operação do Ronac (Rondas Ostensivas Nazareth Cerqueira), que pertence ao BPChoque (Batalhão de Polícia de Choque). A apuração está sendo feita e se for necessário, vai virar IPM (Inquérito Policial Militar)”, explicou o oficial.

A delegada Márcia Julião, titular da 34ª DP (Bangu), falou que os dois casos estão sendo investigados e que é preciso responsabilidade e cautela para se chegar aos verdadeiros culpados.

Geral

“Antes de crucificar quem quer que seja, é preciso investigar a fundo. Estamos procurando a verdade sem preconceito algum. Também é preciso ressaltar que nenhum policial entra na comunidade para matar, ou matar crianças. Tenho absoluta certeza de que o policial que mata uma criança nunca vai esquecer isso. Policiais não são ET’s que vêm da lua. Temos sentimentos, temos família, choramos, rimos”, destacou.

O presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj, deputado estadual Marcelo Freixo, ressaltou que a comissão vai acompanhar atentamente cada caso.

Geral

“Não podemos deixar que as mortes destas crianças caiam no esquecimento. Queremos saber o que de fato aconteceu e quais as providências que foram tomadas durante os diferentes episódios. É completamente inaceitável que essas coisas continuem acontecendo. Não é simples para ninguém ouvir falas carregadas dessa dor e sentimento, mas quem sabe esse mal-estar na sala não nos faz trabalhar melhor. Não vai trazer as crianças de volta, mas não podemos permitir que se transformem friamente em estatísticas”, finalizou.

audiencia na alerj (6)

LEIA MAIS AQUI:

Pauta do Dia no Top Blog!

Anúncios
comentários
  1. doutor disse:

    Já fui policial nesta cidade,não é facíl entrar em uma comunidade aatráz de traficantes ,o propio morador ,seja criança ou adulto ,em vez de se abrigar ficam no meio da rua,nessa Hora o traficante abre fogo contra os policiais,ai não tem como nnguem se ferir.Eu queria ver essa comisão de dh,entrar junto com os policiais nas vavelas,eles não vão!,são uma cambada de demagogos,querendo aparecer pra galgar votos nas muito próximas eleições.Srs Marcelo Freixo,Alessandro Molom,Cambada de aumofadinhas de gabinetes querendo aparecer para as eleições.Da nojo de ver esses caras!!

  2. doutor disse:

    Acho uma palhaçada,eu quero ver eles se reunirem para dar um bom salario e condiçoes de trabalho para os policiais que estão sofrendo nas ruas..

  3. […] nenhum acesso a cidadania, um privilégio de poucos em um país rico. Ironicamente, muitos deles são “abortados” pelo Estado Brasileiro todos os anos. Contra esse aborto nenhum cristão reclama né? Dando vida ao […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s