Fotos: Pedro Pantoja

Recrutado pelo traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem, 33 anos, considerado um dos criminosos mais procurados do Estado, para ser seu segurança particular e lhe passar informações privilegiadas sobre operações realizadas pela Polícia Civil na Favela da Rocinha, em São Conrado, Zona Sul do Rio, o ex-soldado da Polícia Militar Carlos Henrique Pereira Januária, também conhecido como Caíque, 29, foi preso por agentes da Divisão de Capturas e Polícia Interestadual (DC-Polinter), na manhã desta sexta-feira, dia 26 de março.

O acusado foi surpreendido em sua casa na Favela da Tijuquinha, no Itanhangá, na Zona Oeste do Rio, território que, curiosamente, é controlado por um grupo paramilitar. No endereço, os policiais encontraram R$100 mil em espécie, o Astra placa KYI-0885, a motocicleta Yamaha placa KNT-4662, além de uma pistola Glock 9 mm, que teria sido furtada de um policial civil, munições de diversos calibres e dois rádios transmissores.

Segundo as investigações, o ex-PM atuava como uma espécie de agente duplo, ora como informante (X-9) da Polícia, levando informações aos agentes sobre esconderijos de armas e drogas, ora repassando ao chefão do pó da Rocinha dados pontuais sobre ações policiais que seriam realizadas na comunidade da Zona Sul, considerada o reduto da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA). Por cada informação precisa sobre a atividade policial, o acusado recebia R$20 mil das mãos do próprio Nem.

“Ele é o primeiro de muitos outros policiais militares e civis que serão presos por colaborar com o crime organizado. Essa ação é um recado claro para quem frequenta a delegacia travestido de informante, mas tem envolvimento com traficantes”, enfatizou o chefe de Polícia Civil, delegado Alan Turnowsky.

Nos últimos quatro anos – mesmo período em que o acusado serviu à Polícia Militar – todas as operações realizadas na Rocinha tiveram vazamento de informação, entre as principais aquela que terminou com a descoberta de uma refinaria de cocaína no alto da favela, em junho do ano passado, e a ocorrida no último dia 11, na qual sete seguranças diretos de Nem foram mortos e uma adolescente de 13 anos acabou ferida por estilhaços durante confronto entre policiais e traficantes.

Ainda de acordo com as investigações, Nem conseguiu escapar de pelo menos cinco grandes operações durante esse período. Em agosto de 2007, o inspetor da Polícia Civil Sérgio Luiz Albuquerque, 49, foi preso sob a acusação de vazar informações sobre uma operação feita por 12 delegacias especializadas. Em novembro de 2009, outra ação coordenada pela Secretaria de Estado de Segurança Pública e pela Polícia Federal para prender Nem e Rogério Rios Mosqueira, o Roupinol, morto na última terça-feira, dia 23, foi abortada logo no início. Os dois foram alertados por informantes e conseguiram fugir.

A relação do traficante com o ex-PM ia além do interesse por informações sobre as ações da Polícia. O chefão da Rocinha mantinha certo grau de confiança e amizade com o criminoso, inclusive para andar em seu carro pelas ruas da comunidade.

“Ele trazia boas informações que batiam com nossas investigações, mas em determinado momento do processo apuratório descobrimos o envolvimento dele com os bandidos. Ele fazia jogo duplo. Queria ficar bem com a Polícia e com os traficantes”, completou Turnowsky.

Para o delegado, com a morte de Roupinol, considerado o maior fornecedor de drogas da ADA, de sete seguranças do chefão da comunidade e a prisão do ex-PM, Nem está ficando cada vez mais vulnerável.

“Só falta pegar o camisa 10 desse time”, brincou.

Em nota divulgada à imprensa, a Polícia Militar informou que o ex-soldado pertenceu à corporação durante quatro anos. Em sua folha de serviço constam falhas administrativas, como faltas constantes ao trabalho. Para evitar ser considerado desertor, ele geralmente se apresentava antes que o prazo expirasse. Entretanto, Carlos Henrique acabou expulso da corporação no último dia 9 de março.

Não é a primeira vez que informantes da Polícia Civil se utilizam da instituição para atender interesses criminosos. Ano passado, o também ex-PM Francisco César da Silva de Oliveira, o Chico Bala, auxiliou nas investigações da 35ª DP (Campo Grande), cujo titular era o delegado Marcus Neves, para desarticular a milícia autodenominada Liga da Justiça, que agia na Zona Oeste do Rio. Com o desmantelamento do bando, o grupo paramilitar chefiado pelo ex-policial, o Comando Chico Bala (CCB), acabou ocupando os espaços deixados pelo grupo rival e passou a controlar a maior parte dos serviços de segurança e transporte ilegal na região. No dia 25 de fevereiro, Chico Bala foi preso em uma mansão de luxo em Guarapari, no Espírito Santo.

“Policiais como esse serão tratados piores do que bandidos, pois, além de servir ao crime, eles colocam a vida de outros policiais em risco”, finalizou o Chefe da Polícia Civil.

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