Mangueira sob o medo de uma guerra entre facções

Publicado: 27 de agosto de 2010 em Uncategorized

Um racha ente duas lideranças do Comando Vermelho (CV) pode provocar a disputa pelo controle das bocas-de-fumo em um dos principais redutos da facção criminosa no Estado: o Morro da Mangueira, em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio. Em lados opostos, tio e sobrinho podem travar uma guerra na comunidade que, depois do Complexo do Alemão, na Penha, também na Zona Norte, é o maior esconderijo para traficantes do CV.

O desentendimento ocorreu entre Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, 46 anos, e seu sobrinho, Alexander Mendes da Silva, o Polegar, 36. A denúncia, investigada pela Polícia, ganhou força depois que Tuchinha pediu para ser transferido para a Penitenciária Alfredo Tranjan – antiga Bangu 2 – no Complexo de Gericinó, em Bangu, na Zona Oeste do Rio. Conhecida como “cadeia de seguro”, a unidade abriga detentos que correm risco de morte.

Outras atitudes de Tuchinha – condenado a 43 anos de prisão por tráfico de drogas e formação de quadrilha – reforçaram a suspeita: em novembro do ano passado ele se recusou, por duas vezes, a ir ao Hospital Penal Fábio Soares Maciel, localizado no Complexo de Gericinó. Em dezembro, houve nova recusa em receber atendimento médico na unidade.

“Só faz isso quem tem medo de morrer”, enfatizou um policial que participa das investigações.

Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, 46 anos

“Enquanto Tuchinha tá cascudo, Polegar é novo, articulado. O fim dos criminosos cascudos é ser mortos pelos mais novos”, ressaltou.

A suspeita é de que Tuchinha possa pular para a facção rival Amigos dos Amigos (ADA), por causa de sua amizade com Cristiano de Sá Silva, o Abelha, 37, traficante do Morro do Turano, no Rio Comprido, na Zona Norte. Apesar de integrar a mesma facção que Tuchinha, Abelha é irmão de Saulo de Sá Silva, o Saulo da Rocinha, 35 – um dos maiores fornecedores de drogas de Antônio Francisco Bonfim Neto, o Nem, que controla a Favela da Rocinha, em São Conrado, na Zona Sul do Rio – maior reduto da ADA no Estado.

Saulo de Sá Silva, o Saulo da Rocinha, 35 anos

Enquanto Saulo foi preso em janeiro de 2008, em sua casa, no Condomínio Praia de São Bento, na cidade de Maragogi, em Maceió, no litoral de Alagoas, seu irmão Abelha também está na cadeia.

Saulo de Sá Silva, o Saulo da Rocinha, 35 anos

A briga entre tio e sobrinho não é um incidente isolado dentro do Comando Vermelho. Integrantes da facção têm se desentendido com freqüência desde a transferência dos maiores líderes do CV para presídios de segurança máxima fora do Estado do Rio de Janeiro. Com a prisão dos traficantes mais velhos, criminosos cada vez mais jovens têm assumido postos de comando e se recusado a cumprir antigas ordens.

Um dos maiores fatores de descontentamento é a determinação para que traficantes em liberdade sustentem os presos e suas famílias. A atitude consta como quinto mandamento na lista de 10 existentes na cartilha da facção, criada pelo traficante Rogério Lemgruber, o Bagulhão – que até hoje é lembrando nas inscrições existentes nas embalagens das drogas vendidas nas bocas-de-fumo controladas pelo Comando Vermelho em todo o Estado do Rio: “CV RL PJL” – alusão à sigla da facção, à abreviação do nome do traficante e à frase Paz, Justiça e Liberdade.

Os “10 mandamentos do Comando Vermelho” são: “1- Não negar a Pátria; 2- Não cobiçar a mulher do próximo; 3- Não conspirar; 4- Não acusar em vão; 5- Fortalecer os caídos; 6- Orientar os mais novos; 7- Eliminar nossos inimigos; 8- Dizer a verdade mesmo que custe a vida; 9- Não caguetar; 10- Ser coletivo”.

Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, 46 anos

Após passar 17 anos preso, Tuchinha conquistou a liberdade condicional para cumprir o restante da pena, em julho de 2006. O benefício foi revogado em abril de 2007, depois que deixou de cumprir uma das obrigações mais simples do livramento condicional: ir à Casa do Albergado Crispim Ventino, em Benfica, na Zona Norte, assinar o livro de presença. Com isso, o juiz Carlos Eduardo Figueiredo, da Vara de Execuções Penais (VEP), expediu um novo mandado de prisão.

O sumiço do traficante teria um motivo: em 27 de fevereiro daquele ano, ele foi seqüestrado em São Cristóvão por policiais que negociaram sua libertação com comparsas dele. Do pedido de resgate de R$ 2 milhões, pelo menos R$ 1,2 milhão teria sido pago.

Alexander Mendes da Silva, o Polegar, 36 anos

Já Polegar – que está escondido há nove meses no Complexo do Alemão, conquistou o benefício do regime semi-aberto por ter cumprido um sexto da pena à que foi condenado – 22 anos de prisão por tráfico de drogas e associação para fins de tráfico. Mesmo acusado por quatro homicídios dentro da Penitenciária Laércio da Costa Pellegrino, antiga Bangu 1, no Complexo de Gericinó, em 2002, Polegar teve o comportamento considerado “excelente” pela Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap).

Foi este parecer que motivou o juiz Carlos Borges, da VEP a conceder a progressão do regime ao traficante.
No entanto, ele saiu da Casa do Albergado Crispim Ventino, em Benfica, na Zona Norte, no dia 14 de setembro de 2009 e não voltou para dormir, passando a ser considerado foragido. Esta é a segunda vez que Polegar foge após ser beneficiado pela Justiça.

Alexander Mendes da Silva, o Polegar, 36 anos

Conhecido por uma das ações mais ousadas do crime organizado no Rio, ele foi preso em janeiro de 2002, em Fortaleza, no Ceará, após ficar foragido por sete meses depois de obter o livramento condicional. No ano anterior, ele foi acusado de estar entre os 40 homens armados que usaram um caminhão para derrubar um muro da Divisão de Capturas e Polícia Interestadual (DC-Polinter) e libertar 14 presos.

Em novembro do ano passado, ele proibiu os moradores do Complexo do Alemão a chamá-lo pelo vulgo com o qual ganhou notoriedade entre os integrantes do Comando Vermelho. Agora, ele só pode ser chamado de “Paraibinha”. A determinação do traficante seria uma maneira de despistar a Polícia.

Com aproximadamente 1,65 metro de altura – que seria, inclusive, o motivo do apelido “Polegar” –, o criminoso já foi visto várias vezes desfilando pelo Largo do Boiadeiro. Ele também circularia por becos na Vila Cruzeiro e na Nova Brasília, sempre rodeado por comparsas armados com fuzis, responsáveis pela sua segurança.

Com aproximadamente 160 mil moradores, o Complexo do Alemão é composto pelas favelas Vila Cruzeiro, Chatuba, Nova Brasília, Pedra do Sapo, Alvorada, Areal, Matinha, Chuveirinho, Palmeiras, Fazendinha, Grota e pelos morros da Baiana, do Alemão, dos Mineiros e do Adeus. A região é conhecida pela Polícia como Quartel General (QG) do CV, por oferecer abrigo aos integrantes da facção mais procurados.

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comentários
  1. Samuel disse:

    Prezados,

    Acharam a passagem no Alemão que liga os dois lados da linha amarela, feito desde da decada de 1990 e impulsionado via recursos e operarios do PAC na mira de armas nos ultimos meses. Mas pelo que percebo não vão poder dar muita enfase para não semear mais panico a população.
    Bem, correm aos montes que a Policia interceptou via Disque denuncia ordens vinda da Mangueira para pararem os incendios. Agora a ordem é roubar celulares e fazer pequenos sequestros relampagos para angariar dinheiro. Seria uma nova forma silenciosa e psicológica de semear o medo e o terror urbano.
    Começaram circular fotos e audios de bandidos na Rocinha e na Mangueira fugidos dos ultimos ataques, em desprezo a mídia e a polícia.
    É cada vez mais contudente que ao menos por enquanto os rivais se deram tregua para reconquista dos territorios e para apaziguar o animo da policia, reforçando os diques restantes do trafico, para manter os vicios de alguns e o patrimonio de outros.
    Nesse novo capitulo apelo para o Eterno para que os aflitos desta cidade parem de sofrer.

  2. Pauta do Dia disse:

    […] Mangueira sob o medo de uma guerra de facções […]

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