Arquivo de 8 de setembro de 2010

Infância roubada pelo crime

Publicado: 8 de setembro de 2010 em Uncategorized

“Aprendi uma coisa: o crime não compensa. Os que estão aqui, como eu, querem mudar de vida. Esse negócio de que foi levado ao erro por influência de amigos não cola mais”.

O ‘papo reto’ dado por um dos internos do Centro de Recursos Integrados de Atendimento ao Adolescente de São Gonçalo (Criaad-SG), na Estrela do Norte – unidade de semiliberdade que oferece medidas socioeducativas para menores que cometeram atos infracionais – aponta para uma triste realidade que atinge os municípios de Niterói, São Gonçalo e Maricá: o aumento no número de adolescentes envolvidos com o crime.

De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ), nos seis primeiros meses desse ano houve um aumento de 41% na apreensão de menores na chamada Grande Niterói – área de abrangência dos três municípios – em relação ao mesmo período de 2009. Apenas em Niterói, 192 adolescentes foram apreendidos pelas polícias Civil e Militar – 64 a mais do que ano passado, representando um aumento de 168%.

O reflexo desses números está no próprio Criaad-SG, que opera com sua capacidade máxima (32 adolescentes), e no Centro de Atendimento Intensivo de Belford Roxo (Cai-Baixada), onde 70 % dos internos foram apreendidos em São Gonçalo.

Segundo o juiz Pedro Henrique Alves, da Vara da Infância, Juventude e do Idoso de São Gonçalo, 95% dos atos infracionais cometidos pelos menores da região estão direta ou indiretamente relacionados ao tráfico de drogas.

“O adolescente vê a figura do traficante como a de um ídolo. A sensação efêmera de poder dá a eles o acesso à roupas de marcas e prestígio entre as mulheres. Tudo isso associado à falta de oportunidade e, principalmente, ao enfraquecimento da estrutura familiar pode acarretar no cometimento de crimes”, explica o magistrado.

Desconstruir esse referencial é um dos principais desafios das equipes técnicas que trabalham nas unidades do Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas (Degase). No Criaad-SG, que também recebe adolescentes das comarcas de Itaboraí, Magé e Tanguá, assistentes sociais, psicólogos e pedagogos acompanham o desenvolvimento dos menores em atividades culturais e cursos profissionalizantes com o objetivo de mudar essa realidade.

“Incutir outros valores nesses adolescentes é algo muito complexo. Falo para esses meninos que para conseguir alguma coisa eles têm que batalhar muito, correr atrás. Esses menores saem daqui cientes de suas responsabilidades e de que a mudança depende de cada um deles”, comentou a assistente social Roseane Palomar, da equipe técnica do Criaad-SG.

Para isso, segundo o magistrado, o apoio da família e da sociedade na reinserção social desses jovens é fundamental, mais do que a própria internação.

“A internação pela internação não leva a lugar algum. Leva, sim, à pós-graduação da ilicitude. O caminho é a inserção social através da Educação”, reforçou o titular da comarca de São Gonçalo.

E foi esse o caminho escolhido por X, 17 anos, cujo depoimento abriu essa matéria. Matriculado no curso de ladrilheiro na Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro (Faetec), ele preferiu não falar sobre o crime que cometeu, mas assume a responsabilidade de tê-lo praticado. Com a namorada grávida de cinco meses, o adolescente pretende ser exemplo para o filho.

“Olha o tamanho do muro. Se eu quisesse, não estaria mais aqui. Mas quero mudar minha história e esquecer o passado”, encerrou confiante.