Arquivo de 11 de setembro de 2010

Um grupo de extermínio que seqüestrava acusados de envolvimento com o tráfico de drogas, cobrava valores que variavam de R$ 15 mil a R$ 30 mil e matava as vítimas após o pagamento do resgate começou a ser desmantelado por policiais da 72ª DP (Mutuá), na manhã de ontem. Entre os integrantes da quadrilha, que atuava há pelo menos nove meses em São Gonçalo, há quatro policiais militares e dois filhos de uma oficial da PM. As prisões foram efetuadas após dois meses de investigação, que foi realizada com auxílio de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça.

“Eles agiam desde 2009 e fizeram pelo menos 11 vítimas”, ressaltou o delegado Geraldo Assed, titular da 72ª DP.

As investigações tiveram início em julho, depois que familiares de Rafael Dias de Miranda, 22 anos, e Diego Torres da Silva, 20, procuraram a delegacia para registrar o seqüestro dos jovens, que pertenciam à facção criminosa Comando Vermelho (CV) e trabalhavam como vapores do tráfico da Favela de Três Campos, na Trindade.

Os dois estavam na Rua Cuiabá, também na Trindade, quando foram levados por ocupantes de um veículo prata que se identificaram como policiais do Serviço de Inteligência (P-2) do 7º BPM (São Gonçalo), no dia 13 daquele mês. Os supostos PMs pediram R$ 15 mil em troca da liberação dos jovens, mas acabaram baixando o valor para R$ 5 mil.

O local marcado para o pagamento de resgate foi a Rua Doutor Alfredo Backer, em Alcântara, em frente a uma agência do Banco do Brasil. Parentes dos rapazes, que conseguiram e reunir R$ 2.700, contaram que dois homens chegaram em um Toyota Corola prata – um deles usava uma calça do fardamento da PM – dizendo a todo momento que queriam dinheiro do tráfico e não da família.

Logo depois, um motoqueiro também chegou ao endereço, afirmando que “se não tivesse o valor combinado, eles dançariam”. Os corpos dos dois jovens foram encontrados, no dia seguinte, em um valão na Rua Fernando La Salle, na localidade conhecida como Ipuca, no bairro Jardim Catarina.

Wanderson da Silva Tavares, o Gordinho

O aparelho de telefone celular de uma das vítimas – usado pelos criminosos para fazer contato com familiares dos rapazes e também com traficantes que seriam comparsas dos jovens – continuou sendo usado pelo cabo Alexsandro Horffmam Lopes. Lotado no 12º BPM (Niterói), ele trabalhava no Hospital Estadual Azevedo Lima, no Fonseca, na Zona Norte de Niterói. Já o chip da linha ficou com Wanderson da Silva Tavares, o Gordinho, um dos filhos da tenente Rosa Maria Santos Camara Tavares – que é lotada no Batalhão de Polícia Florestal e do Meio Ambiente (BPFMA) e é candidata a deputada estadual pelo Partido Social Cristão (PSC).

Hygor Camara Tavares

Além de Gordinho, o outro filho dela, Hygor Camara Tavares, continuava foragido, até a tarde de ontem. Enquanto Lopes foi preso em casa, no Raul Veiga, os outros policiais receberam voz de prisão assim que chegaram para trabalhar. Eles foram identificados como sendo os cabos Christian Brito Guimarães e Alecsandre Nazareth Baiense, ambos lotados no 12º BPM, e o soldado Rogério Acácio Ferreira, lotado no 7º BPM. A sétima integrante do grupo seria Miridiana Pereira Mascarenhas, a Mimi, presa em sua casa, no Luiz Caçador.

“Além de ser viciada em crack, ela tinha envolvimento com traficantes e repassava informações sobre aqueles que poderiam ser seqüestrados pelos PMs”, contou o delegado Geraldo Assed.

Miridiana Pereira Mascarenhas, a Mimi

Na residência de Lopes, os policiais apreenderam uma pistola nove milímetros, aparelhos de telefone celular de três vítimas e R$ 7.400 em espécie. Na casa do cabo Alecsandre foi apreendido um Fiat Siena prata que foi encaminhado ao Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) para ser submetido à perícia.

Com mandados de prisão temporária por 30 dias decretada pela juíza Patrícia Lourival Acioli, da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, todos foram indiciados por formação de quadrilha, extorsão e 11 homicídios. Já Lopes – apontado pela Polícia como líder do grupo de extermínio – também foi autuado por posse de arma de uso restrito.

A última vítima do bando foi o traficante conhecido como Bochecha, do Complexo do Mutuapira, no bairro Mutuá. O corpo dele foi encontrado carbonizado dentro de um Corsa na Avenida Santa Luzia, no bairro de mesmo nome, no último dia 26. Ele havia sido seqüestrado, na noite anterior, em frente ao Clube Mauá, no bairro Estrela do Norte. Familiares contaram à Polícia que os criminosos exigiram R$ 15 mil para libertá-lo.
Antes dele, Dyego Virtuoso, o Bodinho, 26, foi sequestrado, no dia 13 de agosto, em sua casa, no Complexo do Salgueiro. Ele foi encontrado morto com marcas de tiro no início da manhã do dia seguinte, na Rua Doutor Manoel Duarte, no Gradim. O resgate exigido pela libertação da vítima foi de R$ 50 mil.

“Através das escutas telefônicas, identificamos os cinco alvos seguintes”, enfatizou o delegado, citando os traficantes conhecidos como Bruno BR, Alex Orelhinha, Maiquinho – filho de Luís Paulo Gomes Jardim, o Luiz Queimado, 47 -, Formiga – que seria o dono do tráfico na Trindade e está escondido no Rio e Marcelo Bigode – que seria o tesoureiro no Salgueiro e estaria no Paraguai providenciando a compra de armas e drogas.

“Vamos continuar as investigações para identificar outros integrantes desse grupo e também outras vítimas”, revelou Geraldo Assed.

Agentes do Núcleo de Homicídios da 72ª DP disponibilizaram os telefones 3119-3634 e 3199-1950 para quem tiver informações que possam auxiliar nas investigações policiais. Os dados também podem ser encaminhados para a Central do Disque-Denúncia através do número 2253-1177. Não é preciso se identificar e o anonimato é garantido.

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