Medo cala testemunhas da Máfia das Vans

Publicado: 17 de setembro de 2010 em Uncategorized

Quinze anos após o início da disputa sangrenta pelo monopólio do transporte alternativo em São Gonçalo – que provocou a morte de, pelo menos, 50 pessoas –, nenhum dos mais de 60 indiciados por participação na chamada ‘máfia das vans’ foi sequer denunciado pelos homicídios. O motivo, segundo a Polícia e o Ministério Público (MP), é o medo imposto às testemunhas dos crimes pelos integrantes do grupo, cuja influência chegou ao Legislativo com a eleição de Edson da Silva Mota, o Mota da Coopasa, para a Câmara Municipal, em 2004. Duas dessas testemunhas foram executadas durante as investigações.

O primeiro a ser calado foi motorista da Coopertral, Jorge Luiz dos Santos, o Jorge Preto, 43 anos. Ele foi assassinado a tiros na frente da esposa e do filho de dois anos, ao volante da van em que trabalhava, na Praça de Santa Izabel, em fevereiro de 2008. A vítima foi atacada minutos antes do horário marcado para depor sobre o inquérito da ‘máfia das vans’ na 74ª DP (Alcântara).

Outro caso semelhante foi a morte do também topiqueiro Idelfonso Teixeira de Abreu, 43, executado com mais de 10 tiros na porta de casa, no Jardim Catarina, em dezembro do mesmo ano. A denúncia feita por Idelfonso, em 2006, levou ao indiciamento de 61 pessoas, entre elas a própria vítima, que era proprietária de uma cooperativa e também acusada de participar do esquema que movimentava R$ 1,2 milhão de reais por ano. Um mês antes do assassinato do topiqueiro, 27 integrantes do bando, entre eles sete policiais, foram presos durante uma megaoperação coordenada pela Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Draco-IE).

Entretanto, parte do grupo, entre eles o ex-vereador e os dois filhos – acusados de liderarem o bando – responde por formação de quadrilha em liberdade desde março do ano passado, quando a defesa conseguiu a anulação do processo junto à 6ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

No dia 12 de janeiro desse ano, o MP ofereceu nova denúncia contra os envolvidos. O juiz João Guilherme Chaves Rosas Filho, da 3ª Vara Criminal de São Gonçalo, determinou, no último dia 20 de agosto, que tanto a defesa quanto o MP apresentassemm suas alegações finais sobre o processo. A sentença dos acusados, portanto, deve sair até o fim do ano.

As investigações sobre a disputa pelos pontos de vans em São Gonçalo tiveram início a partir de um dossiê entregue à Secretaria de Estado de Segurança Pública, em 2006, relatando a existência de um grupo liderado pelo então vereador Mota da Coopasa e composto por policiais civis e militares, responsáveis por coagir pessoas interessadas na exploração de linhas de transporte alternativo na região. De acordo com a Polícia, os integrantes das cooperativas eram obrigados a pagar uma taxa que variava de R$ 150 a R$ 300 por semana para circular nas linhas controladas pela quadrilha.

“O Mota queria monopolizar o transporte alternativo na cidade, mediante ameaças e com uso de seguranças armados. Não houve indícios de participação do ex-vereador nos assassinatos, mas era ele quem indicava os sucessores dos presidentes das cooperativas assassinados”, explicou o delegado Fábio Barucke, que conduziu investigações no período em que ficou à frente da 74ª DP.

O inquérito rendeu 632 páginas e devido à sua complexidade foi remetido à Draco, que deu prosseguimento as investigações. Em novembro de 2008, agentes da especializada deflagraram a operação Coopercrime e cumpriram 27 de 45 mandados de prisão,além de 70 mandados de busca e apreensão em São Gonçalo, Niterói, Maricá, Campos, Macaé e em alguns municípios da Baixada Fluminense.

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