Justiça investiga curral eleitoral na Favela da Rocinha

Publicado: 19 de setembro de 2010 em Uncategorized

Dez anos após a criação do Grupo Carteiro Amigo (GCA) – responsável pela entrega de mil correspondências diárias na Favela da Rocinha, em São Conrado, na Zona Sul do Rio – os funcionários da organização estão sendo obrigados pelo tráfico a pedir para os moradores de uma das maiores favelas do Brasil, que concentra mais de 100 mil pessoas, votos para dois políticos.

A denúncia foi feita por carteiros comunitários, que revelaram que, por determinação do traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, 33 anos, eles têm que distribuir uma carta em que pedem votos para os candidatos Alexandre Serfiotis e André Lazaroni. O primeiro, do partido Democratas (DEM), concorre a uma vaga como deputado federal, enquanto Lazaroni, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) Verde, tenta se eleger deputado estadual.

A formação do suposto curral eleitoral será investigada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio, que pediu auxílio à Polícia Federal e ao Ministério Público.

Nas últimas eleições, Nem – integrante da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA) – mostrou seu poder ao pedir votos para o então candidato a vereador Luiz Cláudio de Oliveira, o Claudinho da Academia, do Partido Social Democrata Cristão (PSDC). Na época, a Polícia descobriu a ata de uma reunião do tráfico com comerciantes e líderes comunitários, onde Nem teria dito que “não admitia derrota”. O candidato acabou eleito com 11 mil votos, quase 10% da população da favela.

“A partir da notícia formal da eventual prática de crime, vamos encaminhar cópias do material para a delegacia da PF e a Procuradoria Regional. É preciso analisar o possível crime eleitoral, sem prejuízo da apuração da responsabilidade criminal, se constatada”, disse o juiz Paulo Cesar Vieira de Carvalho Filho, responsável pela fiscalização da propaganda eleitoral na cidade do Rio.

O cartaz começa com o texto “Leia com muita atenção” escrito em letras maiúsculas e termina com “Contamos com sua ajuda e de seus familiares, Grupo Carteiro Amigo, sempre pensando o melhor para você”. Além dos panfletos, o pedido por votos também está sendo feito através do site do vereador Claudinho da Academia – que morreu em junho deste ano, aos 39 anos, vítima de um ataque cardíaco.

No último dia 3 de setembro, foi postada em sua página na internet – no endereço http://www.claudinhodaacademia.com.br – uma foto em que ele aparece ao lado de André Lazaroni sob o título “Meu voto para deputado estadual é de André Lazaroni”.

O corpo de Claudinho da Academia foi encontrado no dia 19 de junho, no chão do banheiro do apartamento de seu sócio e chefe de gabinete Gabriel Andreatta, em São Conrado, próximo à Rocinha. O vereador estava no imóvel com dois de seus três filhos, um casal de gêmeos de 10 anos que são deficientes auditivos.

Ele teria resolvido passar a noite na casa do amigo porque havia brigado com a mulher. O corpo foi encontrado sem roupa dentro do banheiro, com o chuveiro ligado. Na época, a assessoria de imprensa do político divulgou que ele andava muito nervoso por causa da proximidade da campanha eleitoral para deputado estadual e da abertura de um novo inquérito policial contra ele.

Em janeiro deste ano, ele chegou a ser denunciado pelo Ministério Público, acusado de coagir eleitores por meio de ameaças na eleição de 2008. O vereador negava as acusações. Pai de três filhos, Claudinho foi eleito presidente da Associação de Moradores da Rocinha em 2007 e entrou para a Câmara de Vereadores em 2008 – onde concedeu o título de cidadão benemérito ao jogador Vagner Silva de Souza, mais conhecido como Vagner Love, 26. O prefeito Eduardo Paes e o vice-governador do Estado do Rio, Luiz Fernando Pezão, estiveram presentes no enterro.

O candidato André Lazaroni afirmou que assumiu o compromisso de dar continuidade aos projetos do vereador ao ser procurado por familiares de Claudinho e funcionários de seus projetos sociais. Através de sua assessoria, ele informou que sequer possui monopólio de placas de propaganda na comunidade.

Ele também disse que se aproximou de Claudinho através do vice-governador, que negou em seguida ter intermediado qualquer tipo de contato entre eles.

O Grupo Carteiro Amigo foi criado, em agosto de 2000, por três amigos que tiveram a idéia após trabalharem no Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Eles criaram um sistema de códigos para facilitar a vida dos moradores da Favela da Rocinha, que sofriam com o atraso na entrega e sumiço de correspondências.

Como muitas ruas não têm nomes e às vezes as casas repetem o mesmo número, os funcionários da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos tinham dificuldade para trabalhar na região. Com o pagamento de R$ 3 por mês, os moradores passaram a receber suas cartas na porta de casa por cerca de 40 carteiros comunitários. Pelo menos 3 mil residências são cadastradas no serviço.

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