Denunciado pelo Ministério Público por fraudes em licitações, superfaturamento de compras e serviços, ameaça, corrupção ativa, corrupção passiva e falsidade ideológica, o prefeito de Guapimirim, Renato Costa Mello Júnior, o Júnior do Posto, foi preso em ação da Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Draco-IE) que foi batizada como “Operação Intocáveis” e que contou com apoio de equipes da Subsecretaria de Inteligência (Ssinte) da Secretaria de Estado de Segurança (Seseg). Além dele, quatro vereadores, dois secretários do município e mais nove pessoas foram denunciadas por participação no esquema criminoso.

De acordo com as investigações, que duraram cerca de oito meses, o prefeito, o vereador Marcelo Prado Emerick, o Marcelo do Queijo (PPS), a ex-subsecretária de Governo e candidata à Prefeitura Ismeralda Rangel Garcia da Costa, e o Secretário de Administração, Governo e Habitação e Agricultura e Pecuária, Isaías da Silva Braga, formam a cúpula da quadrilha, acusada de criar empresas de fachada ou em nome de laranjas para vencer licitações, além de pagar um “mensalão” para alguns vereadores.

Ex-subsecretária de Governo e candidata à Prefeitura de Guapimirim, Ismeralda Rangel Garcia da Costa

Os agentes cumpriram quatro dos sete mandados de prisão expedidos pelo desembargador Luiz Noronha Dantas, da Sessão Criminal do Tribunal de Justiça. O diretor geral da Câmara Municipal de Guapimirim, Ivan Azevedo Valentino, o Ivan do Gazetão, Ramon Pereira da Costa Cardoso e Ronaldo Coelho Amorim, o Ronaldinho, estão foragidos. A pedido do MP, a Justiça determinou também o afastamento da função pública do prefeito, vereadores e secretários.

“A medida tem a intenção de evitar que, se valendo dos cargos, eles continuassem a comandar o esquema”, afirmou o Subprocurador-Geral de Justiça de Atribuição Originária Institucional e Judicial, Antônio José Campos Moreira, durante entrevista coletiva na sede do MP.

“Parabenizo o nosso Subprocurador-Geral Antônio José e os integrantes do Gaeco, que juntos com a Secretaria de Segurança do Estado e a Draco, conduziram muito bem as investigações, possibilitando que pudéssemos exercer nossas atribuições originárias em relação a agentes públicos que estavam usando o poder para desviar verba pública em prejuízo da sociedade. Essas investigações foram de muita qualidade e muito bem conduzidas. Tiveram início com o Procurador-Geral e o Subprocurador Antônio José, com apoio do GAECO, em razão das pessoas investigadas, e logo prosseguiram em parceria com a Secretaria de Segurança e a Draco, resultando na denúncia que oferecemos contra o prefeito de Guapimirim, vereadores e outras pessoas, demonstrando como é importante a integração entre MP e Polícia”, disse Procurador-Geral de Justiça, Cláudio Lopes.

Delegado fingiu ser policial corrupto
Para comprovar o esquema criminoso da quadrilha, em uma ação inédita, um delegado da Draco trabalhou durante quatro meses infiltrado no bando. Simulando ser um policial corrupto, disposto a aceitar propina para impedir investigação em torno do bando, Roberto Leão negociou com alguns dos denunciados por pelo menos oito vezes. O trabalho de infiltração foi autorizado pela Justiça e filmado por outros agentes da delegacia.

“Foi um método de investigação ousado e com técnicas inovadoras, que conseguiu mostrar nitidamente como essas pessoas se apropriavam do dinheiro público”, afirmou Antônio José.

Após encontros em churrascarias e lanchonetes, no dia 27 de julho, por volta das 18h20, em um posto de gasolina situado na Rodovia Rio-Teresópolis, Marcelo do Queijo e Isaías da Silva entregaram R$ 800 mil em espécie, divididos em sacos plásticos, a Leão.

Outra decisão importante da Justiça foi a suspensão das atividades econômicas das seis empresas do grupo citadas na denúncia. De acordo com o Subprocurador, até o término do processo, as empresas não podem firmar contratos ou movimentar quantias.

“É uma maneira de esvaziar as principais fontes de dinheiro da quadrilha”, ressaltou.

Vereador Marcelo Prado Emerick, o Marcelo do Queijo

Ainda segundo a denúncia, as empresas estão em nome de laranjas, principalmente parentes dos denunciados, e ganhavam todas as licitações realizadas na Prefeitura e na Câmara de Guapimirim. Um dos exemplos é a Transportadora Unidos de Guapi, que mantinha contratos referentes à locação de carros de passeio e caminhões. A firma era de fachada e usada para fraude de processos licitatórios, uma vez que os serviços supostamente prestados eram terceirizados, utilizando veículos de outras pessoas que não tinham contrato com o município. Carros particulares em nome dos acusados eram utilizados e custavam R$ 7 mil por mês aos cofres municipais.

O delegado Alexandre Capote, titular da Draco-IE, estima que a quadrilha agia desde 2005 e que tenha movimentado R$ 48 milhões neste período.

“Era um grupo bem articulado que se aproveitava do poder político para desviar dinheiro público”, declarou Capote.

Durante a “Operação Intocáveis” foram cumpridos 44 mandados de busca e apreensão na casa de alguns dos denunciados, na Prefeitura e na Câmara. Os policiais apreenderam documentos, joias avaliadas em R$ 1 milhão e R$ 200 mil em espécie, além de R$ 120 mil em cheques e três carros importados.

Vereador Alexandre Duarte de Carvalho

Com a apreensão dos documentos, o Subprocurador anunciou que haverá uma segunda fase da investigação, com o objetivo de fazer levantamento do patrimônio pessoal dos denunciados.

Vereador Marcel Rangel Garcia, o Marcel do Açougue

“Eles conseguiram R$ 800 mil em espécie muito rapidamente. Além disso, a casa de alguns dos imputados destoa completamente das demais da localidade”, explicou Antônio José.

Vereador Iram Moreno de Oliveira, o Iram da Serrana

Os denunciados que não tiveram a prisão decretada são: os vereadores Iram Moreno de Oliveira, o Iram da Serrana, 35 anos (PMDB); Marcel Rangel Garcia, o Marcel do Açougue, e Alexandre Duarte de Carvalho (PSC); o secretário Municipal de Turismo, Esporte e Lazer, Lenir de Resende Sobreira; além de Cleiton Cardoso da Silva; Glauci da Silva Soares Castro; Magali Nascimento da Silva; Jorge Freire da Silva e Maria Fabiana de Almeida Muniz de Oliveira, apontados como laranjas do esquema.

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