Fotos: Pedro Pantoja

Na última semana do mês de outubro, uma triste estatística chama a atenção: 162 policiais já foram feridos, trabalhando ou de folga, desde janeiro até ontem, no Estado do Rio de Janeiro. Destes, 59 estavam de serviço. No total, 90 morreram – sendo 80 policiais militares e 11 policiais civis. O número aumentou com a morte do sargento da Polícia Militar Alexandre Costa Dias, 46 anos. Na corporação há mais de duas décadas e lotado no 22º BPM (Benfica) há dez anos, o PM havia saído de serviço e chegava em casa, na Zona Norte de Niterói, quando foi abordado pelo bandido.
O crime ocorreu na Rua Magnólia Brasil – um dos principais acessos ao Morro do Boa Vista, na divisa entre os bairros Fonseca e São Lourenço, por volta da 1h desta segunda-feira, dia 26. O sargento já tinha colocado seu carro – um Gol branco – na garagem e fechava a porta de sua residência quando foi surpreendido pela ação criminosa. Ele ainda conseguiu sacar sua pistola calibre 40 e reagir, mas, na troca de tiros, foi baleado três vezes. Atingido no pulmão e nos rins, ele chegou a ser socorrido por familiares e levado para o Hospital das Clínicas de Niterói (HCN), no Centro, mas não resistiu aos ferimentos e morreu na unidade, no início da manhã de ontem, se tornando o 81º PM morto no Rio, somente este ano.
“Ele participava de confrontos com criminosos bem armados e perigosos e trabalhava em um batalhão responsável por favelas críticas e não me esqueço de quando ele me disse: “troco tiros com os piores bandidos e vou acabar morrendo na mão de algum otário”", revelou um amigo do PM, que era casado e pai de um menino de 11 anos.
Um dos irmãos do policial, o taxista Eduardo Costa Dias, 53, acredita que ele tenha reagido a um assalto.
“O índice de roubo de carros no Fonseca está enorme, principalmente na rua em que meu irmão morava e na Carlos Maximiano, que é próxima e também dá acesso ao Boa Vista”, afirmou.
No entanto, a Polícia não descarta a possibilidade do PM ter sido vítima de uma vingança, já que nem o carro e nem a sua arma foram levados. Na calçada em frente à casa do policial, foram arrecadados projéteis de pistolas calibre 40 e também nove milímetros.

“Pode ter sido uma tentativa de roubo dificultada pela reação do policial ou pode ser que não seja latrocínio (roubo seguido de morte), já que, a princípio, nada foi levado”, ressaltou um inspetor lotado na 78ª DP (Fonseca), onde o caso foi registrado.
Horas após o crime, policiais militares do 12º BPM (Niterói) lotados no Destacamento de Policiamento Ostensivo (DPO) da Engenhoca detiveram Wesnerson Carvalho Cardoso, o Ostinho, 26. Baleado na mão, ele é filho de criação do ex-traficante Walter Gomes de Carvalho Filho, o Waltinho do Boa Vista, 45, – que era ligado à facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA) e apontado pela Polícia como dono do Morro Boa Vista. Após cumprir pena durante 14 anos, ele está em liberdade desde dezembro de 2007.
Levado para a 78ª DP como suspeito de participação na morte do PM, ele acabou sendo liberado por falta de provas. No entanto, no início da tarde de ontem, foi novamente detido. Após receberem um telefonema anônimo apontando a localização dele e garantindo haver ligação de Ostinho com o crime, equipes do Patrulhamento Tático Móvel (Patamo) do 12º BPM se dirigiram ao Morro do Boa Vista e foram recebidos a tiros.
Enquanto parte dos policiais participavam do confronto, que resultou na apreensão de 130 pedras de crack, 51 papelotes de cocaína e 58 trouxinhas de maconha, os outros chegaram ao endereço onde Ostinho se escondia e o conduziram, novamente, à delegacia do Fonseca.

Wesnerson Carvalho Cardoso, o Ostinho, 26 anos
O suspeito – que já foi indiciado em inquérito sobre tráfico de drogas – alegou que era integrante de uma torcida organizada e que havia sido baleado durante uma briga após o jogo Botafogo x Flamengo, realizado na noite de domingo no Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, no Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio.
“Ele disse que foi atingido pelo tiro no Centro de Niterói e que tinha sido socorrido por um amigo, mas não soube dizer em que rua exatamente e nem lembrava o nome do suposto amigo. A denúncia anônima apontava o envolvimento dele na morte do PM e uma testemunha o reconheceu”, explicou um dos policiais que participaram da ocorrência, informando que, no início da noite, a Justiça concedeu um mandado de prisão contra o suspeito, que foi encaminhado à carceragem da Divisão de Capturas e Polícia Interestadual (DC-Polinter), em Neves.
O corpo do PM – que já foi lotado no 7º BPM (São Gonçalo) e na Escola Superior de Polícia Militar (ESPM) – foi enterrado nesta terça-feira, dia 27, no Cemitério Parque da Colina, no bairro Cantagalo, na Região de Pendotiba, em Niterói.
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